Que o plástico foi fundamental para garantir uma maior longevidade dos alimentos dos campos até a chegada nas mesas dos consumidores e revolucionar a vida moderna pela flexibilidade de suas inúmeras aplicações, de brinquedos e bijuterias até peças de computador e de automóveis, todos sabem.  No entanto, seu processo de fabricação, majoritariamente a partir de uma fração do petróleo, por meio de um longo processo industrial, tem levado pesquisadores de todo o mundo a buscar fontes alternativas e renováveis para sua manufatura.

Na Europa, a média de consumo de polietileno per capita, uma das matérias-primas mais comuns para a produção de plástico, é de 33,1 kg, enquanto na América Latina é de 11,8 kg por pessoa, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Isso demonstra que o seu consumo, e consequente impacto ambiental, deve aumentar nos próximos anos.

Diante deste desafio, uma equipe de cerca de 30 pesquisadores de quatro instituições de pesquisa, sob a coordenação da Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ), desenvolveram um novo tipo de plástico biodegradável, feito da amêndoa do caroço de manga em mistura com o biopolímero natural, o PHBV, que pode ser aplicado à indústria alimentícia, na composição de embalagens, e até no setor médico para compor matrizes ósseas.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil é um dos maiores produtores de manga do mundo com uma produção de mais de um milhão de toneladas por ano. O processamento industrial de manga para polpas e sucos resulta no descarte dos caroços, correspondente a valores entre 40% e 60% do seu volume.

A equipe de pesquisa da Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ), em parceria com a Embrapa Instrumentação (SP), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e Centro de Tecnologia Mineral (CETEM) se reuniram em busca de alternativas para reutilizá-los, visando gerar uma tecnologia que pudesse ser aplicada à indústria. O trabalho, inclusive, foi homenageado na 5ª Conferência Internacional sobre Polímeros Naturais, Biopolímeros e Biomateriais, em 2017.

“O desenvolvimento de novos biocompósitos pode ser um caminho viável para o aproveitamento de coprodutos industriais na fabricação de itens inovadores e sustentáveis”, afirma a pesquisadora da Embrapa Edla Lima, que lidera os estudos.

Um dos principais desafios de toda a equipe se concentra na utilização de um material que não tem uniformidade, como o caroço de manga, em que a casca e a amêndoa variam em composição e estrutura dentro de uma mesma espécie vegetal, de época e local de origem.

Os cientistas têm de driblar essa dificuldade para garantir a reprodutibilidade da composição (formulação). Para isso, já foram realizados mais de uma centena de testes (conheça mais no vídeo abaixo).

De acordo com a professora e pesquisadora Rossana Thiré, “devido à sua abundância e renovabilidade, a utilização de resíduos agrícolas como matérias-primas é vantajosa para a economia, o meio ambiente e a tecnologia, devido à sua baixa demanda de energia de fabricação, baixa emissão de CO2 e alto nível de biodegradabilidade, quando comparados aos compósitos de polímeros reforçados com enchimentos inorgânicos”.

Os biopolímeros naturais, no entanto, são até 12 vezes mais caros que os polímeros gerados por petróleo, mas levam apenas cerca de dois meses para se decompor no meio ambiente. “Há de se pagar esse custo adicional para evitar que toneladas de plásticos tradicionais gerem impactos ambientais por mais de um século”, afirma.

Estudo realizado pela Fundação Ellen Mac Arthur prova que a contaminação de rios e mares com resíduos plásticos é uma preocupante realidade. De acordo com a pesquisa, cerca de oito bilhões de toneladas do material são despejados nos mares todos os anos, o que pode ser comparado a um caminhão de lixo por minuto. Se nada for feito para reverter essa situação, em 2050, haverá mais plásticos do que peixe nos oceanos.