Em 2014, um grupo de pesquisadores de universidades europeias e latino-americanas entrevistou 5,9 mil adolescentes bolivianos e equatorianos entre 14 e 18 anos. Os estudiosos estavam interessados em entender a relação entre o comportamento sexual de adolescentes e suas visões sobre igualdade de gênero. Os resultados mostraram que meninos e meninas que consideram a igualdade de gênero um tema importante usam métodos contraceptivos mais frequentemente, além de descrever suas experiências sexuais de forma mais positiva.

O estudo, como pesquisas anteriores já haviam diagnosticado, demonstrou que atitudes relacionadas à igualdade de gênero têm um impacto positivo na saúde sexual e reprodutiva de adolescentes e em seu bem-estar, além de ajudar na prevenção de doenças e de uma gravidez indesejada. Mas que atitudes são essas? E como trabalhar conceitos e ações relacionadas a gênero com esses jovens no dia a dia?

Preparamos uma série de sugestões de especialistas sobre o tema, para ajudar pais e educadores a trabalhar igualdade de gênero com adolescentes. Essa é a segunda reportagem da série, que já abordou infância, e falará ainda da temática na fase adulta. Veja, então, como adolescentes podem se tornar agentes de mudança para um mundo igualitário.

POR UMA ADOLESCÊNCIA MAIS IGUALITÁRIA Como educar adolescentes para a igualdade e equidade de gênero Ensine o respeito Adolescentes precisam saber a diferença entre paquera e assédio e estar seguros para falar sobre isso quando se sentirem desconfortáveis com alguma situação - É isso mesmo, filho! NÃO é NÃO! Ajude na educação em sexualidade Seja você uma fonte confiável para falar sobre sexo: mostre materiais sobre educação em sexualidade e orientação sexual aos seus filhos e garanta informações seguras - Li na internet que o importante é tomar pílula, só pra não engravidar! - HIV e outras infecções só se previnem com camisinha! (na capa da revista - "Educação em Sexualidade) Acolha diferentes experiências Não pré-defina a orientação sexual do seu filho. Dê abertura para que o(a) jovem possa ser quem é, sem julgamentos. O adolescente está ainda em descoberta sobre seus sentimentos e desejos - Mãe, pai, essa é a Ju, minha namorada! - Oi! - Que prazer te conhecer! - Seja bem vinda! Apoie a autenticidade Encoraje o(a) jovem a ter um projeto de futuro em qualquer área de atuação. E respeite sua decisão, seja ela qual for - Querem ver a minha apresentação de dança? - Claro, filho! (convite) ARTE: Helô D’Angelo/Believe.Earth

FALE SOBRE CONSENTIMENTO E RESPEITO
É importante que, desde cedo, jovens aprendam o que é consentimento e respeito nas abordagens e nas relações sexuais. Adolescentes precisam saber a diferença entre paquera e assédio, por exemplo, e estar seguros de falar quando estão sendo tocados de uma forma desconfortável ou agressiva por alguém.

EDUCAÇÃO EM SEXUALIDADE É PODER
O jovem, que, em algum momento vai iniciar sua vida sexual, precisa saber como agir para tomar decisões acertadas, evitar o contágio de doenças sexualmente transmissíveis e uma gravidez indesejada, por exemplo. “Muito dos problemas que adolescentes enfrentam se devem ao fato de que eles têm dúvidas”, explica Judy Y. Chu, pesquisadora e professora de Stanford. “E se eles não podem falar sobre isso, eles ficam suscetíveis a um grande risco.”

O ideal é que a informação seja apresentada ao adolescente desde cedo, num diálogo franco e aberto, de preferência antes que a relação sexual ocorra. Estudos já mostraram que a educação sexual não acelera o processo de ingresso na vida sexual. Pelo contrário. Um relatório da Unesco feito em vários países mostrou que adolescentes educados sexualmente realizam sexo mais tarde e tendem a usar mais camisinha com os parceiros.

Indique, compre ou imprima textos e livros de educação em sexualidade para o(a) adolescente ler em casa para ter acesso à informação confiável. Muitos jovens vão procurar informações sozinhos e acabam se deparando com materiais com erros conceituais e informações equivocadas na internet.

ACOLHA DIFERENTES EXPERIÊNCIAS E FORMAS DE AFETO
Dar abertura para que o(a) jovem possa vivenciar seus desejos sem julgamentos implica em não pré-definir sua orientação sexual, principalmente em um momento de mutabilidade como a adolescência.

Como explica a professora da Universidade Estadual Paulista e especialista em educação e sexualidade Célia Regina Rossi, a adolescência é uma fase complexa, “é o momento da experimentação”. E, segundo Rossi, a demonstração de interesse por um menino ou por uma menina nessa fase não necessariamente é fixa. “Eles estão ainda em descoberta e é muito importante que a família acolha a descoberta”, deixando o(a) jovem “trazer pra casa a possibilidade dessas escolhas que ele(ela) está fazendo. E orientar sempre, estar junto, estar do lado.”

APOIE SONHOS E ENCORAJE A AUTENTICIDADE
Encoraje e apoie a(o) adolescente a seguir os caminhos profissionais que desejar, não limitando escolhas por causa do sexo biológico ou da orientação sexual. Segundo Judy Chu, é importante que pais e responsáveis não imponham limites aos adolescentes, “permitindo que eles(elas) escolham o que é certo pra eles(elas) e o que eles(elas) acreditam que são bons fazendo. Se são muito bons em algo, por que não permitir que sigam esse caminho?”

AJUDE A ENFRENTAR BULLYING, DISCRIMINAÇÃO E RACISMO
Ensine o(a) adolescente a não se engajar em atitudes e conversas vexatórias em relação a qualquer pessoa. Esse jovem também deve entender que é importante repreender quando presenciar uma situação como essa, tanto no dia a dia da escola como on-line. Segundo um estudo publicado em 2010, jovens vítimas de cyberbullying reportam mais sintomas de depressão do que os expostos aos demais tipos de bullying.

É também importante que adolescentes membros de comunidades vulnerabilizadas consigam identificar comentários e ataques machistas, racistas e homofóbicos, além de saber como agir e onde denunciar. Pais e responsáveis também devem estar atentos aos relatos dos(as) jovens negros, por exemplo, pois, segundo a educadora Gina Ponte, “às vezes a escola é racista o ano inteiro com aquele(a) jovem”. Portanto, de acordo com ela, é importante “acolher, ouvir e legitimar” suas narrativas.

Outra barreira enfrentada por adolescentes negros(as) é lidar com o estereótipo da hiperssexualização dos corpos negros, que entre outros motivos, encontra suas origens na escravidão e do apagamento da história negra. Um dos caminhos é a Lei 10.639 de 2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas.”As famílias podem estimular que adolescentes convivam em um ambiente diverso, para que eles não reforcem seus preconceitos e, assim, possamos promover uma mudança no imaginário social que é formado a partir de nossas vivências cotidianas”, afirma Juliana Souza, advogada da área de Advocacy do Instituto Alana.

 

Para a produção desta reportagem foram consultadas Judy Y. Chu, professora de biologia humana da Universidade de Stanford e autora de When Boys Become Boys – Development, Relationships, and Masculinity (Quando meninos se tornam meninos – Desenvolvimento, Relacionamentos e Masculinidade, em tradução livre); Gina Ponte, educadora e criadora do projeto Mulheres Inspiradoras.

A consultoria para a revisão desta reportagem e dos quadrinhos são das advogadas do Instituto Alana, Mayara Silva de Souza e Juliana Pereira, ambas militantes pela equidade racial; da ativista e jornalista Juliana Gonçalves, uma das organizadoras da Marcha das Mulheres Negras em São Paulo; e também da professora da Universidade Estadual Paulista,  Célia Regina Rossi, especialista em educação e sexualidade, coautora de Sexualidade e Educação Sexual: políticas educativas, investigação e práticas.

 

 

A consultoria para a revisão desta reportagem e dos quadrinhos são das advogadas do Instituto Alana, Mayara Silva de Souza e Juliana Pereira, ambas militantes pela equidade racial; da ativista e jornalista Juliana Gonçalves, uma das organizadoras da Marcha das Mulheres Negras em São Paulo; e também da professora da Universidade Estadual Paulista,  Célia Regina Rossi, especialista em educação e sexualidade, coautora de Sexualidade e Educação Sexual: políticas educativas, investigação e práticas.

PARA SABER MAIS

  • O documentário “The Mask You Live In” (Netflix) traz reflexões importantes sobre masculinidade contemporânea.
  • Um guia elaborado pela ONU Mulheres (inglês) para ajudar a denunciar e diminuir a violência contra meninas e mulheres
  • Um guia do governo australiano sobre como falar com seu filho sobre sexo (inglês)
  • Perguntas e respostas para pais, familiares e amigos sobre pessoas transgêneros e gênero expansivas (inglês)
  • Avaliações de filmes, podcasts e séries para crianças e adolescentes (inglês)